JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A Itália sai da letargia

“Votem «Não» porque as actuais alterações despedaçariam o texto da Constituição, elaborado após o fim do fascismo italiano, e que previne contra novas ditaduras”

Romano Prodi

 

A Itália viveu nos últimos meses uma crise político-social que começou a ser atenuada quando nas eleições de 9 de Abril, o Professor Romano Prodi, derrotou Silvio Berlusconi por pouco mais de 24000 votos.

No quadro de uma Reforma do Sistema Eleitoral aprovado pela coligação de centro-direita permitiu a constituição de uma maioria absoluta na Câmara Baixa.

Alguns dias, após, as eleições, o Supremo Tribunal confirmou que coligação vencedora tinha conseguido na Câmara de Deputados 24775 votos, mais que a coligação governamental, o que lhe garantiu a mencionada maioria absoluta nas duas Câmaras.

A vitória do centro-esquerda foi questionada pelo então Primeiro-ministro, Sílvio Berlusconi, e pela sua coligação governamental, que impugnaram o escrutínio ao considerar que tinha havido fraude eleitoral.

Nessa sequência, Berlusconi fez um apelo aos juízes para examinarem os votos impugnados. Perante a decisão do Supremo Tribunal, Romano Prodi assegurou, que a sua coligação tinha o número suficiente de parlamentares para formar um governo forte e garantir a estabilidade do país.

As palavras tranquilizadoras do ex-presidente da Comissão Europeia foram dirigidas sobretudo aos mercados e ao sector financeiro, que tinham apresentado sinais de nervosismo face a uma possível eventualidade de que as reformas ficassem bloqueadas no novo Parlamento, devido à justa vitória do centro-esquerda.

No Partido de Berlusconi, jorrou água fria ao anúncio do Supremo Tribunal e exigiram, uma vez mais, controlos suplementares dos votos.

A lei eleitoral em vigor foi aprovada em Dezembro passado, prevendo controlos, e seria a atitude a tomar. Tais controlos não são adequados, e é justo que o vencedor, ainda que por um voto, governe.

O Supremo Tribunal, realiza um controle puramente formal, existindo outras instâncias judiciais com competência. A ideia de Berlusconi era estudar todas as possibilidades a fim de propor mais recursos legais com a finalidade de mudar o resultado eleitoral.

Só se poderá apelar à decisão do Supremo Tribunal, uma vez criado o novo Parlamento e através de uma comissão eleitoral criada para o efeito.

Romano Prodi teve de repartir entre os seus aliados os principais cargos, que eram os Democratas de Esquerda, grupo mais importante da União, e a Refundação Comunista.

Romano Prodi procurou que as negociações com os seus aliados, se realizassem num ambiente de normalidade e cooperação.

Essa normalidade era necessária, uma vez que em Maio teria que se eleger o novo Presidente da República e o centro-esquerda unido tinha os números suficientes para eleger por si só o novo Chefe de Estado, caso não chegasse a um acordo com os conservadores para votar num candidato que reunisse uma maioria ampla.

Se o consenso se rompesse, a eleição do máximo mandatário podia atrasar-se, com a conseguinte dilação do novo Governo, dado que pertencia ao novo Presidente da República dar posse ao Executivo.

Romano Prodi tinha urgência para pôr em execução o seu programa, que contempla a luta à evasão fiscal, que atinge 200000 milhões de euros, uma reforma da Justiça, que pretende mais leve e uma retirada rápida dos militares estacionados no Iraque.

A principal preocupação do futuro Executivo, era conservar a débil maioria, de apenas dois assentos que o centro-esquerda tem no Senado.

O Governo de Romano Prodi, obteve no dia 23 de Maio, a confiança da Câmara de Deputados, concluindo o processo de investidura do novo Executivo.

O voto de confiança da Câmara Baixa deu-se quatro dias depois de ter sido outorgado pelo Senado, situação garantida, dado que o centro-esquerda conta com a maioria absoluta neste órgão.

O Governo obteve o suporte de 344 dos 630 deputados da Câmara, enquanto 268 da oposição conservadora, votaram contra.

Na altura Romano Prodi manifestou a sua preocupação pela situação económica de Itália, depois da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) ter advertido que o deficit público atingiria no corrente ano 4,2%, e em 2007 4,6%.

A 10 de Maio, Giorgio Napolitano, de oitenta anos de idade, e ex-comunista, foi eleito Presidente da República, tendo afirmado que o seu primeiro objectivo seria o de acalmar os ânimos que reinavam no Parlamento.

Seria apaziguar a política italiana depois das controvertidas eleições gerais que defrontaram as coligações de Romano Prodi e Sílvio Berlusconi.

Disse que a Câmara, já não era o lugar onde tinha trabalhado 38 anos, em que ninguém escutava ninguém.

A ex-maioria conservadora não tinha um espírito de abertura, nem tentou entender os argumentos da oposição. Nada queria escutar, dada a atitude prepotente da maioria.

Tudo tinha sido muito negativo. Queria fazer com que as pessoas falassem para discutirem de uma forma correcta e razoável.

A Itália, depois das lides legislativas e presidenciais, encerrou a 21 do corrente a campanha para o referendo de 23 e 24 sobre a Revisão da Constituição, no meio do confronto entre o Governo de centro-esquerda, que a recusava, e a oposição conservadora, que pedia o “SIM".

Cerca de 47 milhões de italianos foram chamados às urnas para decidir se ratificavam as mudanças da Carta Magna, que o Parlamento tinha aprovado em Outubro de 2005, quando no Governo se encontrava o bloco conservador de Sílvio Berlusconi.

As Câmaras aprovaram sem a maioria necessária de 2/3 a alteração à Constituição de 1948, só pela via parlamentar, o que abriu as portas ao referendo.

O centro-esquerda, recusou em Outubro e suportava o voto negativo, uma postura à que se uniu o ex-presidente da República Carlo Ciampi, um dos Chefes de Estado mais respeitados da história da República Italiana.

Uma vitória do "Não" no referendo seria um suporte para a política do Primeiro-ministro Romano Prodi, que advogava a não alteração da Constituição, enquanto se vencesse o "Sim" sairia reforçado o centro-direita de Berlusconi.

A reforma é apoiada em general por todo o sector conservador, especialmente pela Liga do Norte, partido que fez das modificações federalistas a sua bandeira política, e que foi fiel aliado de Berlusconi precisamente para tentar rever a Constituição.

A diferença de outras consultas, é que este referendo, por ser constitucional, será válido qualquer que seja o nível de participação.

O referendo de alteração constitucional votado em dois dias, conhecido por "devolution", termo inglês empregue nos processos autonómicos da Escócia e do País de Gales.

O referendo decidia o futuro de uma revisão que contendia com mais de 50 pontos da Carta Magna.

Entre outras, transferia competências às regiões em matéria de previdência, educação e polícia local; daria maiores poderes ao Primeiro-ministro, limitando os do Presidente da República e reduzindo o número de representantes do Câmara de Deputados e do Senado, que se converteria numa Câmara de Regiões nitidamente Federal.

A partir da próxima legislatura, em 2011, o Primeiro-ministro teria o poder para nomear e destituir ministros (actualmente necessita do consentimento do Presidente da República) e para dissolver as Câmaras.

A revisão afectaria o Tribunal Constitucional, uma vez que o Senado Federal tivesse o poder para eleger 4 dos seus 15 membros e a Câmara de Deputados 3, face aos 5 que elege actualmente.

Nas próximas duas legislaturas, ou seja em 2016 entraria em vigor a redução do número de deputados, que passariam de 630 para 518 na Câmara de Deputados e de 315 para 252 no Senado de cunho de câmara federal.

No dia 26, 35% dos 47 milhões de italianos chamados às urnas votaram no referendo. A maior participação deu-se no Norte do país (41%), onde, predominava a aceitação à revisão federalista, enquanto no Sul, teve uma maior rejeição à alteração constitucional, sendo a participação menor (26%).

No centro, a participação foi de 37%. Trata-se de uma participação relativamente alta, comparativamente à anterior consulta, celebrada em 2001 sobre uma reforma administrativa, quando no dia 25 tinham comparecido às urnas 34% dos votantes.

Os resultados definitivos conhecidos dia 28, revelaram que 61,7% dos cidadãos votou “Não”, enquanto 38,3%, votou pelo 'Sim'. Depois de serem conhecidos os resultados, o Primeiro-Ministro Romano Prodi afirmou que era seu dever abrir o diálogo com todas as forças políticas, e que as alterações à Constituição têm que se fazer com o mais amplo acordo possível e não a golpes de maioria.

O triunfo do “Não' pode levar a um forte debate interno e a contestar a liderança de Berlusconi.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 30.06.2006
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

paines.jpg